A mítica do medo da tecnologia
Você usou o ChatGPT no começo, ou ouviu dizer que ele “inventava coisas” e decidiu não arriscar testar?
Esse é o reflexo mais humano possível diante do desconhecido: o receio de perder o controle sobre algo que ainda não compreendemos. No entanto, como toda tecnologia emergente, a inteligência artificial amadureceu com a contribuição de quem decidiu aprender a usá la, e não a evitá la.
O jurista Fábio Ulhoa Coelho ilustrou esse mesmo padrão de resistência décadas antes da IA, em seu artigo O Judiciário e a tecnologia. Ele relembra que, em 1929, o Tribunal da Relação de Minas Gerais anulou uma sentença porque havia sido datilografada, temendo que o uso da máquina de escrever comprometesse o sigilo do processo. Nos anos 1990, algumas sentenças elaboradas em computador foram invalidadas, sob o argumento de que a reprodutibilidade digital prejudicaria o estudo atento dos autos.
O tempo mostrou que esses temores eram infundados, e que cada nova ferramenta, quando dominada, trouxe ganhos concretos à prestação jurisdicional. Ulhoa Coelho conclui com uma reflexão que vale perfeitamente para o momento atual:
“O que garante o seguro tratamento das informações contidas nos processos judiciais são apenas os recursos de informática adotados no armazenamento. Se esses recursos não forem seguros o suficiente, não será a nacionalidade brasileira do armazenador que poderá nos dar qualquer garantia.”
A lição é clara: o medo do novo costuma ser apenas a falta de compreensão sobre seu funcionamento. Assim como a datilografia e o computador foram, um dia, vistos com desconfiança, hoje a inteligência artificial desperta reações semelhantes. Ela não ameaça o jurista, ela o auxilia.